21/12/2008

- Instantes...




Aqui, um texto que achei interessante pra mostrar como podemos, estendo nem atentos ao nosso caminho, ver momentos lindos, até em situações inesperadas. è estar de bem com a vida que nos permite isso! São instantes de felicidade que fazem TODA a diferença... (Chica)


INSTANTES


Nenhuma música é tão doce quanto o riso de uma criança.

Dia desses, passeava pelo centro de Porto Alegre quando vi uma mãe retirando os sapatos do seu menino para que ele caminhasse na praça colorida pelas pétalas dos jacarandás e guapuruvus.


O piá pisou nas flores despedaçadas e riu um imenso riso, solto e cristalino, como se sentisse a mais prazerosa das cócegas.


Foi só um instante de magia, mas alegrou o meu dia.


E me fez lembrar um trecho do célebre poema da norte-americana Nadine Stair, equivocadamente atribuído ao argentino Borges:


“Se pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono...”


Há quem torça o nariz para a singeleza do texto, mas não havia legenda mais adequada para aquela cena matinal: o pequeno príncipe do cotidiano, com o seu riso de fonte, contagiava quem estivesse por perto.


Cheguei de alma leve ao trabalho e testemunhei outro momento especial no elevador.


O sujeito que entrou atrás de mim segurou a porta aberta para dar passagem a um casal de jovens, ele e ela carregando pesados pacotes de jornais.


Como os passageiros não podiam usar as mãos para pressionar o botão do andar desejado, o homem perguntou com um vozeirão de locutor esportivo:

– Para onde?

Quando o rapaz disse que iriam “para o quarto”, o cidadão desatou num riso malicioso que encheu o elevador e espalhou-se pelo corredor no momento em que os dois jovens desembarcaram constrangidos.


O terceiro instante diferenciado daquele dia ocorreu num lugar ainda mais inusitado, o banheiro do prédio.


O rapaz que limpava pias e sanitários assobiava o hino de seu clube preferido.

E trabalhava com entusiasmo, embalado pelo som do próprio sopro, talvez imaginando-se no estádio que nunca freqüentou, vassoura-bandeira nas mãos, a bola-balde rolando na direção do gol adversário e ele dançando na imaginária arquibancada a solitária dança dos vencedores.


Ninguém é feliz o tempo inteiro, sei disso.


Mas a vida também não precisa ser um vale de lágrimas.


Ao observar três personagens comuns de um dia absolutamente rotineiro, renovei minha certeza de que a verdadeira felicidade consiste em saborear pequenos momentos, em compartilhar os breves risos dos nossos semelhantes ou mesmo em acompanhar os primeiros passos de um menino descalço sobre um tapete de flores.

Nilson Souza, Zero Hora, 15.11.08

16/12/2008

- Mostrando o Natal ...


Uma árvore do Perú


Presépio feito por crianças

15/12/2008

- Presépio feito de conchas...



- Dor que dói mais...



Trancar o dedo numa porta dói.




Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói.

Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.



Mas o que mais dói é saudade.



Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.



Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.



Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.



Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.



Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde.



Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.



Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.



Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.



Saudade é não saber.



Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.



Saudade é não querer saber.



Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela.



Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.



Martha Medeiros